Pressão sobre os custos coloca eficiência energética no centro das decisões industriais; revisão de motores, climatização, máquinas e iluminação pode revelar consumo que não contribui para a produção
A alta dos custos de energia está ampliando a atenção da indústria brasileira sobre uma despesa que atravessa praticamente toda a operação. Em 2026, o efeito tarifário médio calculado para o país é de 9,4%, acima das projeções de 5% para o IPCA e de 4,4% para o IGP-M consideradas pela Agência Nacional de Energia Elétrica.
Ao mesmo tempo, o consumo brasileiro de eletricidade voltou a avançar. Em agosto, o país consumiu 47.856 GWh, crescimento de 4,3% em relação ao mesmo mês de 2025 e quinta alta mensal consecutiva na comparação interanual. Na indústria, a variação foi mais moderada, de 0,2%.
Os números ajudam a explicar por que eficiência energética ganhou espaço nas discussões sobre produtividade. Em vez de simplesmente reduzir o uso de equipamentos ou limitar a capacidade produtiva, empresas podem procurar pontos em que a energia é consumida sem gerar retorno proporcional à operação.
Em uma planta industrial, as oportunidades não estão concentradas em um único equipamento. Climatização inadequada, motores operando fora das condições ideais, máquinas antigas, períodos de funcionamento desnecessários, falhas de automação e manutenção preventiva insuficiente podem elevar o consumo.
A iluminação faz parte desse diagnóstico. Em galpões, centros logísticos e áreas produtivas com longas jornadas de operação, quantidade excessiva de pontos de luz, equipamentos incompatíveis com o ambiente e distribuição inadequada do fluxo luminoso podem manter potência instalada acima da necessária.
Quando se fala em eficiência, o objetivo não é simplesmente apagar luzes ou reduzir recursos da operação. É identificar onde existe energia sendo utilizada sem entregar desempenho correspondente. Na iluminação, isso significa entender o ambiente, a altura de instalação, a atividade executada, o período de funcionamento e a quantidade de luz realmente necessária antes de definir os equipamentos.
A discussão ocorre em um momento de mudança regulatória no setor. Em junho de 2026, o Ministério de Minas e Energia publicou a primeira regulamentação brasileira com índices mínimos de eficiência energética para lâmpadas e luminárias LED. Segundo o órgão, equipamentos LED mais eficientes conseguem produzir a mesma quantidade de iluminação com menor consumo de eletricidade e também podem reduzir necessidades de manutenção e reposição.
Na indústria, porém, modernizar a iluminação não significa apenas substituir equipamentos antigos por versões mais novas. O projeto precisa considerar características físicas e operacionais da instalação. Uma luminária de teto industrial, por exemplo, precisa ser especificada de acordo com fatores como pé-direito, distribuição da luz, obstáculos, área que precisa ser iluminada e atividade realizada no local.
Um dos equívocos é comparar projetos apenas pela potência nominal de cada equipamento. O que precisa ser analisado é quanto de luz chega à área necessária, com qual distribuição e com quantos pontos. Reduzir watts isoladamente não garante um projeto eficiente se for necessário multiplicar a quantidade de luminárias ou se houver iluminação sendo direcionada para locais onde ela não é necessária.
A relevância do tema tende a aumentar. Dados publicados pela Empresa de Pesquisa Energética em 2026 mostram que a indústria respondeu por 36,1% do consumo final de eletricidade do Brasil em 2025, o maior percentual entre os setores analisados.
O Ministério de Minas e Energia também estima, no cenário em discussão para o Plano Nacional de Energia 2055, que medidas de eficiência energética possam atender entre 22% e 27% da demanda potencial de energia brasileira nas próximas três décadas.
Mesmo com a adoção da bandeira verde em outubro, que retirou a cobrança adicional vigente nos meses anteriores, o cenário não elimina a necessidade de gestão permanente do consumo. A mudança de bandeira está relacionada às condições mais favoráveis de geração e não reverte os reajustes tarifários acumulados ao longo do ano.
Para as indústrias, o desafio passa a ser identificar quais investimentos conseguem reduzir desperdícios sem afetar produção, segurança ou qualidade. Nesse contexto, eficiência energética deixa de ser apenas uma discussão sobre a conta de luz e passa a integrar decisões sobre custos operacionais, manutenção e competitividade.